Não por acaso, de vez em quando esbarramos com estrangeiros em nossa cidade. Italianos, Espanhóis, Argentinos, Portugueses, Noruegueses, dentre outros que habitam nossa cidade e fazem deste lugar sua "2ª casa".
Ontem fui almoçar na casa de uma amiga de minha mãe, e inadivertidamente, os seus vizinhos vieram almoçar conosco, e dentre estes um alemão.
Mais para lá do que para cá, ele senta à mesa e coloca-se a falar das coisas ruins desta terra. Que o prefeito da cidade é um inseto, que o povo brasileiro é vagabundo, que aqui é o último lugar de se investir, que a cultura é de menor importância, e daí por diante...
Escutei aquilo impaciente e calado, realmente muito incomodado, mas, tentando evitar qualquer tipo de conflito, até porque também era convidado.Dentre estas conversas, a mulher do alemão uma nutricionista brasileira, curiosamente, apesar de concordar com seu marido, percebe nosso constrangimento, e querendo mudar o rumo daquela conversa, adverte que quer ir a igreja e fazer um curso. Não obstante a dona da casa questiona se a mulher é católica e ela responde que sim. A dona da casa vira-se para o alemão, vermelho e com os olhos pesados diante de tanto álcool ingerido no corpo e pergunta: você é católico ou nazista? Nossa, imediatamente o alemão abriu os olhos, sua mulher extremamente constrangida pede para que a dona da casa não pergunte isso, e ele como um guerreiro germânico, pergunta se a dona da casa conhece algum judeu? Se já viu pessoas morrerem de fome?? Manda a sua mulher calar a boca e se enfurece...
Notadamente podemos ver o quanto essa questão mais de 50 anos depois ainda incomoda um povo tão marcadamente e intensamente.
A glória de ser alemão ou estrangeiro para aquele rapaz que mal falava português termina no indicativo de ser ou não nazista. Parece que o mundo paira sobre a cabeça deste alemão da Baviera e de seus conterrâneos pertencentes à terra da cerveja, mas também de Hitler (infelizmente).
Precisamos pensar, por outro lado, o quanto sofrido foi este processo para a própria Alemanha que matou muito dos seus, somente pelo fato de não serem pertencentes a uma linhagem ficticiamente não híbrido, a famosa raça pura. De uma Alemanha que também pelos seus como Schindler, salvaram milhares de Judeus em atos nobres, e é extremamente importante entendermos que somos incapazes de compreender a esfera que circundava meados do século XX em que a brutalidade do homem chegou ao seu ápice diante das justificativas injustificáveis de um, mal compreendido, alemão, (austríaco), baixinho de bigode ralo e fala firme.
Ao mesmo tempo é insatisfatório que alguém de fora, um alemão, venha e diagnostique as coisas ruins, nomeei as pessoas e classifique um povo. Façamos igual as cubanos que certa vez um americano chegou pra um grupo de cubanos e começou a falar de Fidel Castro. Um homem o interrompe e diz:"concordo com tudo que você diz, mas somente quem pode falar dele e sobre isto somos nós que somos cubanos". A expressão do ser ou não de determinado espaço compreende também a opinião que temos daqui, de nossa terra. Boa ou ruim, somos nós que podemos falar dela, porque efetivamente, as políticas publicas, o reconhecer-se Potiguar, o "ser daqui" advém do fato não somente de morar aqui, mas de criar laços tradicionais com esta terra, de ter antepassados, de levar consigo uma identidade com o lugar, assim como o fato de ser alemão!
Alemão da Baviera respeitamos muito sua opinião mas o constrangimento de ser nomeado nazista deve ser tão grande quanto ver alguem que é incapaz de entender a cultura do lugar que você escolhe para morar, chamado seu povo de inseto, vagabundo, etc.
Longe de um xenofobismo, antes de tudo é o devido respeito que deve ser dado. A distância do nazismo com seu povo, com ser alemão, é a mesma que deve ser guardada com a cultura deste lugar.
Ser de algum lugar é ter efetivamente, um reconhecimento cultural, espacial e identitário como determinado espaço, por isso, somente por isso, você para sempre continuará um alemão nazista e nós insetos vagabundos, tão respeitados ou não por seu povo e vice-versa.
Gustavo
Um comentário:
Nos últimos dias tenho lido um livro bastante esclarecedor sobre a formação da América Latina que parece explicar bem, ainda hoje um episódio desses. Trata-se da obra do sergipano Manuel Bomfim - América Latina: Males de Origem. De como os Europeus saquearam, exploraram, parasitaram e depois culparam os Americanos do sul por "seus" fracassos. Uma análise de 1903 que pode perfeitamente ser utilizada hoje para explicar fatos como este.
Abraço Guga,
Gostei de ver o blog atualizado.
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